02 May 2007

A queda do mito


Caiu o mito do treinador invencível. Ainda bem. Talvez assim o futebol possa voltar a ser o que era. Jogado com fair-play, livre das contratações milionárias e apenas um desporto. Ver notícia aqui.

01 May 2007

1.º de Maio


Vale sempre a pena recordar. Sempre.

Tríptico I

O problema estava dentro de si. Sabia-o. Arrastava a sua existência numa monótona agonia. Sem querer nada em especial, desejando tudo ao mesmo tempo. Saía de casa sem propósito, sem vontade até. Mas saía. Algo decidia por si. Primeiro para comprar o jornal, que nunca lia, depois para um café matinal, que nunca lhe fazia bem. Deixava-o indisposto. Seguia-se a deambulação diária sem destino. O centro comercial, para não apanhar sol, ou chuva, o argumento servia nas duas circunstâncias, as ruas do bairro, para ficar a conhecer as novidades da vizinhança, e a baixa, ao final do dia, para sair da rotina. Mas naquele dia não fez nada disso. Deixou-se ficar deitado. Não havia motivos para obedecer à vida que não escolhera. Além do mais, estava farto. «Merda», dizia a cada cinco minutos. «Merda», gritava interiormente, num monólogo que continuava a longa conversa que mantinha consigo mesmo. Só não sabia que tão involuntária opção, como involuntária teria sido a de se levantar, tomar banho, comprar o jornal e passear, iria mudar completamente a sua vida.

Balaou, de Gonçalo Tocha

Independente mais independente não há. E surpreendente também. Balaou, o primeiro filme de Gonçalo Tocha, que apenas ambicionava ser um dos seleccionados do Indie Lisboa, arrecadou os principais prémios da competição nacional: melhor fotografia e melhor filme. Um distinção que premeia, por um lado, o espírito do festival, a total independência face a qualquer tipo de indústria, e, por outro, a autenticidade, a entrega e a ousadia do projecto.
Sete meses depois da morte da sua mãe, Gonçalo Tocha partiu para os Açores. Precisava de parar, reencontrar as suas raízes, a família, especialmente a sua tia-avó de 91 anos. No fundo, ver o mundo tal como a sua mãe o vira: de uma ilha para o continente, de uma comunidade para uma família, da vida para a doença. Levou consigo uma câmara de filmar, sem grande intenções, e começou a captar imagens. Os primos recém-nascidos, as conversas sobre o passado e o futuro, as paisagens e os suspiros.
É nesta deambulação um pouco claustrofóbica que o acaso lhe indica o caminho. Um casal de franceses, que todos os anos cruzam o oceano Atlântico de barco, entre as Caraíbas e a Europa, convida-o para uma viagem de «regresso». De regresso ao quotidiano e à vida. Um regresso a si próprio. Mas Gonçalo não chegará o mesmo. A bordo do Balaou o jovem realizador, nascido em Lisboa, em 1978, e com formação em Língua e Cultura Portuguesa, interioriza lições marítimas que se aplicam em terra firme. E que aos poucos se tornarão bússolas para os dias que hão de vir.
Oscilando planos fixos e a câmara ao ombro, retendo longamente a flutuação das ondas ou a luminosidade do céu, Balaou apresenta-se como um filme iniciático, dividido em oito lições, tantas quantas as jornadas da viagem. Pessoal e universal, íntimo e transmissível, Balaou faz da catarse esperança, envolvendo o espectador numa aprendizagem que se faz interiormente.
Mais do que premiar um grande filme – Balaou tem as suas limitações, a principal é a opção pela narração que, gravada posteriormente, introduz um elemento de artificialidade num filme em tudo o resto autêntico – o júri distinguiu uma atitude. Porque tanto faz que seja a vida a imitar a arte, ou a arte a imitar a vida, desde que, no meio disso tudo, esteja lá uma câmara pronta para filmar.

Publiquei isto aqui, onde estão mais críticas sobre o Indie Lisboa.

Pontes e margens

«Não havia ponte, mas mesmo assim chegou ao outro lado. Naquele rio não havia margem para dúvidas», lembrou o rapaz.

O jovem Fassbinder


Fassbinder realizou três curtas-metragens, antes de se lançar nas longas, com O amor é mais frio do que a morte. Da primeira, The night, não existem cópias. As restantes surgiram depois do jovem dramaturgo, bastante conhecido na altura, ter reprovado na candidatura à Academia de Cinema de Berlim. O que mais surpreende nestes trabalhos de formação, que passaram recentemente na Cinemateca, integrados numa retrospectiva completa, é a sua maturidade.
Filho de pais separados, Fassbinder habituou-se a ir ao cinema muito cedo, sobretudo com o pai, que vivia em Colónia. Era capaz de ver vários filmes seguidos, em particular os gangsters norte-americanos, que faziam as delícias de quem queria escapar ao já monolítico mainstream de Hollywood. É esse universo, que também foi decisivo para a Nouvelle Vague francesa, e para realizadores tão importantes como Godard, que ressoa nestas duas experiências de dez minutos cada. Mais na segunda do que na primeira, já que esta foi feita em resposta a O Signo de Leão, de Eric Rohmer, filme que Fassbinder gostava muito. Mas vejamos (salvo seja, claro).
Em O Mendigo (1966), um sem-abrigo vagueia pelas ruas de Munique. O ambiente urbano é mostrado logo de início, com um longo plano-sequência que capta os eléctricos a partir, a agitação dos carros, a correria dos transeuntes que rumam a casa no final de mais um dia. Na madrugada seguinte, escondido numa paragem, com uma garrafa vazia ao seu lado, o mendigo vive a solidão da sua existência. Sem destino, encaminha-se para um parque. É nessa trajectória que descobre, no chão, uma pistola. A vida, com a proximidade da morte, ganha um novo sentido. E a concretização dessa possibilidade de vida e de morte anima-o. Mas o acto terá de ser bem feito. Cuidado. Estudado. Meticuloso. Mas a um mendigo nada mais resta do que ser malogrado. Frustrado. Roubado. Destituído de esperança. E em jeito de paródia, duas pessoas que surgem do nada roubam-lhe a pistola. Nem ir desta para melhor é permitido a um mendigo.
A fita seria recusada pelo Festival de Oberhausen, na altura a mais importante mostra de curtas-metragens do mundo, e uma comissão de avaliação não lhe atribuiu o certificado de qualidade que asseguraria ao realizador descontos nos impostos. «Recusar a coisa quase racista que é um certificado de qualidade a um filme tão bem enquadrado e montado como este, num país cuja produção cinematográfica era insignificante», escreve António Rodrigues na folha da Cinemateca dedicada ao filme, «é mais uma prova de que há momentos em que a renovação do cinema só pode ser feita através de alguma violência ou alguma marginalidade». Foi esse o caminho de Fassbinder. «Esta primeira curta-metragem não foi uma experiência, nem uma tentativa, foi uma afirmação.»
Poucos meses depois, Fassbinder realizou O pequeno caos (1967), esta sim uma autentica história de gangsters, como será a trilogia O amor é mais frio do que a morte (1969), Os deuses da peste (1969) e O soldado americano (1970). Outra vez com Munique em pano de fundo, três amigos procuram desesperadamente dinheiro. Tocam às campainhas, entram em prédios, batem às portas, tentam vender assinaturas de revistas, mil e uma artimanhas sem resultado. A única solução é assaltar alguém desprevenido. E é isso que fazem. A realização e a montagem são, aqui, mais ritmadas, com a utilização do plano e contra-plano. Quem bate à porta, que está do outro lado, quem quer vender, quem recusa comprar. A curta acaba com uma sequência extraordinária, e contamo-la, tal como nos alongámos no filme anterior, porque ambos raramente passam nas salas portuguesas. Depois do assalto bem sucedido, e ainda na casa da pobre senhora, Fassbinder, que faz o papel principal, pergunta à única rapariga do grupo: «O que vais fazer com este dinheiro?». Ela responde-lhe: «Não sei, comprar qualquer coisa bonita, um vestido». E, virando-se para o terceiro membro do grupo, um homem, diz: «E tu?». «Talvez um brinquedo para o meu filho.» «E tu?», perguntam os dois. Fassbinder, sintetizando a sua carreira futura, dispara: «Eu vou ao cinema!»

Excertos destas duas curtas-metragens podem ser vistos no site da Fundação Rainer Werner Fassbinder, aqui e aqui.


Ainda a repensar Abril

Tenho acompanhado com interesse a «polémica», se assim se pode chamar, sobre o discurso do Presidente da República nas comemorações do 25 de Abril. O artigo do António Barreto, no Público de Domingo, é uma leitura certeira do que se esconde por detrás da aparente vontade de servir Abril e os jovens. Como a secção opinião não pode ser consultada no site do Público, deixo-vos aqui o essencial:

Quem a tem chama-lhe sua
António Barreto

(...) Nestas festas de comemoração da liberdade, Cavaco Silva nada tinha para dizer. Ou nada queria dizer, o que é bem diferente. Assim, para apesar de tudo não fazer figura de corpo presente, fez o que pôde para ser original. Pôs em causa o sentido e a oportunidade das festas oficiais.
O que é estranho: ninguém aceita um convite para um aniversário para, em casa do anfitrião, discorrer melancolicamente sobre a inutilidade da festa. Socorrendo-se de clichés, falou em nome da juventude, a quem aquela cerimónia nada diria. O argumento é antigo. Mas há qualquer coisa que deixa um incómodo. Não faz sentido querer forjar, ou forçar, a partir do Estado, uma festa jovem, civil e cultural. Esta já se faz. Enquanto houver comunistas, socialistas, gente de esquerda em geral, com mais de umas décadas de idade, haverá festa. É, em boa medida, a festa deles.
As direitas nunca festejaram o 25 de Abril, até por causa do que se lhe seguiu.
Quando um dividido deputado do PSD afirma, como é o caso há anos, que "o 25 de Abril é de todos", está ingenuamente a confessar que de facto não é.
As festas são, numa parte, das esquerdas, que aproveitam o dia para arrasar as direitas, o centro, os governos, os liberais e os patrões. Noutra parte, são dos militares que fizeram a "inesquecível jornada" e que deveriam ter, por gratidão, um belo desfile militar a preceito.
A verdade é que, em todo o país, há, nesse dia, milhares de festas, civis ou autárquicas, quase sempre com o mesmo objectivo: dar voz às reivindicações dos trabalhadores, dos sindicatos, das esquerdas e de alguns intelectuais e artistas. A que não faltam churrascos, bailes e cerveja. Deixem-nas viver, enquanto há, porque é bem possível que, dentro de anos, também o 25 de Abril siga o caminho das praias e dos Centros Comerciais. Quanto ao Parlamento, que produza anualmente aqueles discursos geralmente destituídos de inteligência, novidade ou sentido: dali não vem mal ao mundo. Nem bem.

In Público, de 29 de Abril de 2007